quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Humberto Mariotti: Uma Leitura, Muitas Ideias!

Segue abaixo minha resenha de um dos textos de Humberto Mariotti:

REDUCIONISMO, “HOLISMO” E PENSAMENTOS SISTÊMICO E COMPLEXO


Justificativa

      Como exigência para a conclusão da disciplina Teorias da Aprendizagem em Ambientes Virtuais, ministrada pela Profª Drª Ana Maria di Grado Hessel, do mestrado em Tecnologia da Inteligência e Design Digital (PUC SP), foi solicitado aos alunos que escolhessem um artigo de um dos autores trabalhados durante o semestre e o apresentasse em forma de seminário, além de entregar uma resenha do mesmo. Um dos autores trabalhados foi Humberto Mariotti, quem possui importantes contribuições para a teoria complexidade.

 A escolha do artigo em questão aconteceu após uma triagem dos artigos disponíveis no site do autor (http://www.humbertomariotti.com.br). A triagem levou em conta a pertinência dos artigos ao mestrado em andamento da aluna, ou seja, optou-se por um texto que pudesse enriquecer a pesquisa que está sendo desenvolvida. 


Resenha

        O autor inicia o texto apresentando suas definições para os quatro conceitos presentes no título. Para ele, é possível entende-los da seguinte forma:

  • ·         Reducionismo à conforme fora consolidado por Descartes, diz respeito à divisão do todo em partes e ao estudo das partes como independentes. O reducionismo está relacionado ao pensamento linear.
  • ·         Holismo à surge em um momento posterior ao reducionismo e sua proposta é a exata oposição ao pensamento reducionista. O holismo prioriza o todo, sem dividi-lo em partes. O pensamento sistêmico aqui presente compreende que o todo se sobrepõe às partes.
  • ·         Pensamento sistêmico à foi introduzido em 1940 por Ludwig Von Bertalanffy e apresenta, portanto, uma concepção basicamente holística.
  • ·          Pensamento complexo à é uma proposta mais recente que diferencia-se de suas antecessoras. Nos trabalhos de Mariotti, o pensamento complexo é apresentado conforme a teoria de Morin.


Em seu texto, Mariotti explica que existem variações de terminologia importantes de serem esclarecidas. O que Maturana, por exemplo, chama de ‘sistêmico’ corresponde ao que Morin chama de ‘complexo’. O autor afirma que “essa diversidade é compreensível. Mas, até que se chegue a uma terminologia unificada, se é que um dia isso ocorrerá, é preciso que estejamos atentos a essa diversidade”.
Então, após expor sua escolha pela teoria de Morin e, consequentemente, pelas suas terminologias, Mariotti destaca dois princípios cruciais para o pensamento complexo:

  • ·         Princípio da emergência à diz que o todo é superior às partes à um exemplo seria um tapete, que contém um desenho específico. Apesar de ser composto por diversos fios (partes), o resultado final dessa união sobrepõe-se às características individuais de cada fio. Ou seja, não se trata apenas da junção dos fios aleatoriamente. O “todo” (o tapete) é mais do que a mera soma dos fios e contém elementos que seriam perdidos caso as partes fossem dissociadas.

  • ·         Princípio da imposição à diz que o todo é inferior à soma das partes à um exemplo seria um grupo de pessoas que se reúnem para solucionar um problema. Cada um traz suas ideias e discute alternativas, mas, ao mesmo tempo, deixa de lado inúmeros aspectos da sua individualidade, várias de suas características e habilidades que são próprias de cada um, mas aparentemente irrelevantes para a tarefa que executam conjuntamente. Nesse caso, então, o todo (grupo) não é capaz de incluir a totalidade das partes.


De acordo com a teoria de Morin, o pensamento complexo representa complementaridade e transacionalidade entre as concepções linear (reducionismo) e sistêmica (holismo). Diferente dos pensamentos vigentes anteriormente, a complexidade entende que o todo é ao mesmo tempo superior e inferior às partes, como apresentado nos princípios supracitados. Além disso, o autor afirma que os sistemas são dinâmicos e circulares (não sequenciais), havendo alternância da predominância.
A partir dessa leitura, algumas das importantes diferenças evidenciadas entre o pensamento e linear e o pensamento complexo puderam ser organizadas na seguinte tabela:

Pensamento Linear
Pensamento Complexo
Isolamento todo/parte
Integração todo e parte
Linearidade e harmonia do sistema
Conflituosidade e desarmonia
Busca de certezas – em níveis extremos = alienação
Lida com incertezas – Não há leis gerais ou conceitos simplificadores


Apesar de Mariotti assumir sua afinidade com o pensamento complexo, ele não deixa de reconhecer a importância dos pensamentos linear e sistêmico. Para o autor, o pensamento sistêmico pode ser eficiente para a solução de determinados problemas que exijam intervenções imediatas, mas será insuficiente para que o mesmo problema seja de fato compreendido amplamente.
Uma de suas principais críticas aos pensamentos linear e sistêmico é a incapacidade por eles apresentada de lidar com a aleatoriedade, a desordem, a incerteza e com a conflituosidade, existentes e inevitáveis em qualquer sistema ou organização. Nas suas próprias palavras, “a cultura e a contracultura deveriam estar em uma circularidade tal que mantivesse a conflituosidade em níveis menos traumáticos. Ou seja, a sociedade deveria saber como lidar melhor com a desordem e a incerteza”.
Outra questão importante apresentada por Mariotti é a necessidade da virtualização e da repressão das potencialidades das partes para o funcionamento do sistema. Tomemos, por exemplo, a situação anteriormente apresentada na qual um grupo de pessoas se reúne para solucionar um problema. As potencialidades das partes não são exploradas totalmente, ou seja, muitas de suas habilidades e características ficam virtualizadas. O autor explica que essa virtualização e/ou repressão é necessária, pois, se todas as potencialidades viessem à tona, isso prejudicaria o funcionamento daquele grupo.
O texto traz importantes reflexões sobre a sociedade na qual vivemos, como ela funciona e como deveria funcionar. As ideias apresentadas por Mariotti podem ser transportadas para diversas áreas e a que me interessa particularmente é a educação. O autor não dedica, neste artigo em especial, destaque à educação, mas consigo enxergar uma relação direta entre suas críticas ao funcionamento da sociedade e a forma pela qual a educação vem sendo exercida. O pensamento linear ainda é predominante, tanto na sociedade em geral quanto na educação especificamente, e precisa ser superado. Assim como Mariotti, acredito que o pensamento complexo seja mais apropriado para o bom funcionamento da sociedade e deva, portanto, vencer as resistências, ser estimulado e cada vez mais difundido.
Por fim, destaco um dos caminhos apontados pelo autor para a disseminação e fortalecimento do pensamento complexo:

“Um dos domínios sociais mais favoráveis às redes de conversação que podem ajudar a formar a massa crítica em favor do pensamento complexo, é o chamado Terceiro Setor do processo produtivo. Este compreende as áreas da sociedade em que se fazem trabalhos comunitários e nas quais predomina a economia dita "social", que comporta, por exemplo, serviços voluntários e formas de remuneração não-financeira. Ao lado dele há o primeiro setor (o governo) e o segundo (o universo das empresas), regidos pela economia de mercado e portanto pelo pensamento linear. Mesmo que se levem em conta todas as dificuldades, equívocos, más interpretações e outros problemas, é no Terceiro Setor que mais se vêm observando conversações diferentes das habituais.”

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