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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Incorporando Tecnologias Digitais em Aulas Presenciais: Experiência Pessoal e Resistências

Devo publicar futuramente um texto mais detalhado sobre uma experiência pessoal extremamente marcante no meu percurso. Como sabem, dou aulas de inglês há alguns anos e, num certo momento, decidi inovar: experimentei incluir alguns recursos digitais em aulas ministradas a um grupo de nível básico.

Tudo começou após minha ida ao Congresso Internacional da ABED de Educação a Distância (CIAED), onde fui inspirada a apostar cada vez mais na incorporação dos recursos tecnológicos digitais para uma aprendizagem bem sucedida. Afinal, sempre acreditei na "aprendizagem significativa" e nada mais significativo e contextualizado do que a rede nos dias de hoje.

Após receber, no congresso, injeções de inspiração, animação e fé, pensei em um projeto simples, experimental, que incluía recursos digitais em sala e também a utilização de ferramentas digitais pelos alunos fora da sala de aula. A essa "mistura" das modalidades de ensino presencial e online dá-se o nome de Blended Learning. Para compreender melhor esse conceito, deixo-vos um vídeo explicativo (em inglês):



Como eu disse, o projeto em si será apresentado mais adiante. Quero aqui chamar a atenção para outra questão relacionada a esse trabalho que desenvolvi: a resistência da escola e dos outros profissionais que lá trabalhavam. 

Organizei os conteúdos, estruturei atividades, selecionei recursos, desenvolvi um planejamento detalhado e apresentei à coordenação. Então veio a reação inesperada: aprovaram a ideia, mas estabeleceram várias e comprometedoras delimitações. Primeiramente, tive que concordar que as atividades online seriam oferecidas como atividade "extra" a alunos voluntários e sem poderem ser consideradas na avaliação (nota) dos alunos. Além disso, ficou esclarecido que os alunos não poderiam acessar suas redes sociais e outros materiais online dos computadores da escola e nem de seus próprios computadores ou dispositivos móveis enquanto estivessem na escola. Isso é, do meu ponto de vista, estranho, pois o acesso seria para fins educacionais. Porém, a política da escola proibia a utilização de celulares, smartphones, dispositivos móveis em geral ou o acesso a determinados sites pelos computadores lá disponíveis. Portanto, respeitei as determinações e orientei os alunos conforme tais especificações.

A coordenação me deu ainda outra orientação: estabelecer regras rígidas e supervisionar a atividade dos alunos no espaço virtual criado para interação (grupo privado no Facebook). Certamente existiram regras, como o uso obrigatório do idioma inglês, e supervisão das atividades, mas o exercício hierárquico de poder contrariava toda a minha proposta e provavelmente inibiria a participação dos alunos, comprometendo seu aproveitamento. Logo, não convinha seguir a orientação da coordenação, que nitidamente não compreendeu corretamente minha proposta. Felizmente, não houve nenhum problema com o grupo criado na rede social. Muito pelo contrário. Os resultados finais da experiência foram extremamente positivos: 

  • a interação pela internet fortaleceu o vínculo professora-alunos, sensação sentida inclusive nos momentos presenciais.
  • alguns alunos pouco participativos em sala mostraram-se mais participativos nas atividades online.
  • o número de alunos em recuperação nesse último trimestre, no qual o projeto foi desenvolvido, foi reduzido em aproximadamente 91% em relação ao trimestre anterior.

Apesar dos excelentes resultados, a escola não se mostrou interessada pelo trabalho desenvolvido, não incentivou a incorporação das tecnologias digitais nesse ou em outros componentes curriculares, manteve sua postura resistente quanto à utilização de equipamentos e recursos digitais em seu ambiente (mesmo que para fins educacionais) e, portanto, foi altamente desmotivadora de inciativas inovadoras.

Não foi só a coordenação que foi desmotivadora, mas também alguns outros professores que lá trabalhavam e eram fiéis às suas preferências por um modelo educacional tradicional, centralizador, conservador. No início do projeto, compartilhei ideias com alguns colegas e não notei interesse nem apoio. Ao invés disso, cheguei a ser gentilmente aconselhada por uma pessoa com mais anos de carreira a trabalhar apenas com giz, lousa, explicação verbal e livro didático como forma de "poupar trabalho extra". Vou "poupar trabalho extra" e não me estenderei aqui numa argumentação aprofundada de todos os porquês da minha forte discordância com tal "conselho amigo". 

Dessa forma, dei andamento ao projeto, mas guardei para mim as ideias borbulhantes e as alegrias que tive ao comprovar que eu estava no caminho certo. O compartilhamento do sucesso faz parte do que acredito e foi, portanto, bastante pesaroso não poder fazê-lo naquele momento. Importa dizer que pude dar mais asas àquilo que acredito em outros lugares pelos quais passei e também nos quais trabalhei. 

A escola aqui referida e os profissionais que lá encontrei foram responsáveis por me ajudar a crescer profissionalmente. Tive experiências boas, conheci pessoas que me ensinaram coisas importantes, tive também experiências não tão boas, mas que, de certa forma, proporcionaram relevante aprendizado. Lá existem profissionais excelentes, queridos pelos alunos e por mim, e que são bem sucedidos naquilo que se destinam a fazer. Eles apenas fazem diferente de mim. Diferente não é necessariamente ruim, não é necessariamente errado e acredito que a existência de metodologias distintas é fundamental. As tecnologias na educação ampliam possibilidades de ensinar e de aprender, mas não invalidam outras estratégias ou teorias. Acho necessário ir em busca de atualizações, conhecer o novo, estar aberto a mudanças e a experimentar aquilo que tem algum potencial de sucesso, mas isso nem sempre é visto por aí. Essa situação não é exclusiva de uma escola pela qual passei. Na verdade, essa é a situação mais observada mundo afora e é justamente isso o que merece atenção. É justamente essa rigidez da educação que está deixando-a desinteressante, obsoleta.

Até mesmo aquelas escolas e demais instituições de ensino que querem ser reconhecidas como "moderninhas" continuam quase sempre pecando em suas práticas. Talvez, vivenciar tantas incoerências entre teoria e prática seja até mais nocivo para os alunos do que desenvolver-se em um ambiente conservador tanto teórica quanto praticamente. Não sei. É uma hipótese e cada caso é um caso. O que sei é que as TICs se desenvolvem numa velocidade demasiadamente acelerada, dificultando o acompanhamento e o entendimento de tudo o que é novidade. Enquanto uns atentavam-se ao potencial do Orkut e do Messenger na educação, eles foram substituídos pelo Facebook e pelo Whatsapp. Agora nos distraímos com isso, mas, amanhã, as tecnologias predominantes podem ser outras. E já são outras, pois são inúmeras, que concorrem entre si, que são utilizadas simultaneamente e abandonadas num piscar de olhos. Isso assusta muita gente, principalmente os não dispostos a inovar. Mudanças são, na sua grande maioria, difíceis, mas isso não justifica a opção pela mesmice, pois, muito mais do que difíceis, as mudanças são primordiais para qualquer desenvolvimento.

sábado, 9 de maio de 2015

A Lição de Casa e suas relações com a Meritocracia: Já Pensou Sobre Isso?


Estou aqui buscando ampliar meu entendimento sobre o mundo ao meu redor e, portanto, muito atenta àquilo que abala minhas certezas. Tentarei provocar reflexões e discussões sem querer necessariamente chegar a uma conclusão final ou a uma resposta única. Ainda assim, sei que corro um grande risco de ser mal compreendida. Espero conseguir evitar isso.

O assunto do dia é a relação entre escola e família no que se refere, principalmente, à lição de casa. Primeiramente, assumo que, como professora, acredito na lição de casa e na participação da família naquilo que diz respeito à formação e educação dos filhos. Penso também que o momento de estudo/prática individualizada e sem a presença do professor (ou familiar) é fundamental para o aprendizado, amadurecimento, criação da autonomia e até para o fortalecimento da autoestima do aluno. O erro faz parte da aprendizagem e sua identificação permitirá aos educadores orientarem o aluno naquilo que ele apresenta dificuldades.

Além disso, defendo também a lição de casa pois, como professora, sei que o tempo em sala muitas vezes é incompatível com a carga de conteúdos que temos que transmitir aos alunos. Isso faz com que, tantas vezes, a necessidade de explicações mais detalhadas e bem feitas comprometam o tempo destinado aos exercícios, à prática em si (do aluno). Assim, o estudo realizado em casa é complementar e indispensável para o trabalho iniciado na escola.

Portanto, é plausível que a parceria de escolas e famílias possa ser muito benéfica para os alunos, principalmente para os mais novos, que carecem de mais orientações, atenção e cuidado. Mas há ressalvas e até mesmo controvérsias quanto a isso, o que confere relevância à discussão.
Existe um material disponível bastante interessante e simplificado - iniciativa da Editora Abril e da Malwee -  que pode contribuir para as reflexões relativas à promoção do caminhar conjunto. Observem a cartilha: 


Clique na imagem para ampliar



O conteúdo exposto parece estar de perfeito acordo com o que a grande maioria de nós acredita ser o correto, concordam? Respondendo por mim, digo que sempre pensei ser esse o melhor caminho para uma educação bem sucedida com apoio familiar e nunca havia me questionado quanto a isso. Talvez eu e todos os demais estejamos corretos. Ainda não mudei totalmente minha opinião, apenas atentei-me a fatos que não havia notado antes e pus-me a pensar a respeito. Então, se eu estiver certa ao pensar que a grande maioria de nós concorda com o exposto na cartilha, fica evidente que parece haver uma tendência na cultura capitalista corporativista em aceitar tais ideias sem grandes questionamentos. 

Entretanto, apesar de, à primeira vista, a elaboração da cartilha parecer benéfica tanto para a relação entre pais e filhos quanto para as relações entre pais e escola, alunos e escola e entre alunos e seus objetos de conhecimento (conteúdos impostos pela escola), é possível olharmos através de lentes críticas, percebendo que tal trabalho, na verdade, pode carregar intenções políticas ocultas em seu pano de fundo.

Focando sua atenção na questão da lição de casa, da promoção da importância da participação familiar nos deveres escolares, Carvalho (2004) provoca alguns questionamentos pertinentes neste sentido. Por exemplo: se o trabalho desenvolvido na escola for realmente bem sucedido, existiria de fato a necessidade das frequentes e padronizadas atividades complementares em casa?

Retornando ao que eu disse acima, sei que nós professores sofremos essa incoerência entre conteúdos a serem ensinados e tempo de trabalho em sala de aula, tornando nossa tarefa bastante árdua. Nesse contexto, as lições de casa apresentam um papel crucial, mas a pergunta vai mais além. Podemos pensar criticamente justamente sobre esse sistema de ensino que sobrecarrega professores e alunos e que impossibilita a realização de um trabalho, de fato, bem sucedido.
Ademais, os pais têm um papel educacional e é sabido que vários aspectos da vida familiar podem influenciar, ajudando ou prejudicando, o desempenho escolar dos alunos (ex: desnutrição, relacionamento familiar afetivamente positivo/negativo, etc). Mas por que não deixar a cargo das escolas a educação escolar? Isso não significa que os pais não possam participar, ajudar ou opinar no processo. Isso significa apenas que o desempenho escolar das crianças, no que diz respeito à aquisição de conhecimentos acadêmicos (e não relacionado a outros aspectos como, por exemplo, os comportamentais), seria responsabilidade primária da escola. Casos especiais, no entanto, poderiam e deveriam ser tratados diferenciadamente.
Enquanto alguns autores defendem a importância do momento da lição de casa orientada pelos pais como forma deles conhecerem o desenvolvimento dos filhos e a missão acadêmica da escola, Carvalho (2004) defende que a obrigatoriedade das lições de casa e  o fato de elas serem avaliadas e consideradas nas notas finais dos alunos criam uma condição adversa para as famílias e consequentemente para os alunos. Para a autora, essa conexão escola-família e a divisão de responsabilidades (sempre focando no que diz respeito às lições de casa) é controversa, potencialmente conflitiva e desconsidera importantes questões relacionadas à equidade e pluralidade cultural. Segundo a mesma,

Como nó da parceria família–escola, o dever de casa, portanto, é fundamentalmente uma questão política. Se fosse valorizado ou tivesse condições de ser implementado igualmente por todas as famílias, não necessitaria de regulação formal. Por isso, a política de intensificação do dever de casa pode ser interpretada como um caso de educação da família (de determinadas famílias) e de política cultural, ao submeter os valores educacionais da família à meta de eficácia escolar e aos conceitos prevalentes de sucesso individual. (2004)

Deve-se levar em conta que famílias com diferentes estruturas, composições, níveis econômicos e sociais dispõem de condições muito distintas quanto a tempo, disposição, instrução, entre outros aspectos que influenciam a qualidade e o significado do momento da lição de casa.

A cartilha apresentada por uma das, se não a, mais influentes editoras do Brasil não somente propõe a parceria e divisão da responsabilidade do ensino entre escola e família, mas prioriza a responsabilidade familiar no processo de ensino e aprendizagem dos conteúdos acadêmicos, visto seu título "Educação Começa em Casa".
Então, após essa breve atuação como "advogada do diabo", deixo aqui uma pergunta genuína: estaria essa transmissão de responsabilidade sobre a aprendizagem (da escola para a família) de acordo com uma cultura que tenta impor aos seus integrantes que seu fracasso ou sucesso advém principalmente de seu próprio mérito (meritocracia) e não das condições e oportunidades às quais se tem acesso? 


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Obs: Recomendo a leitura do artigo citado (referência e link abaixo) e, para aqueles que leem em inglês, há um texto que também achei interessante (clique AQUI).
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Referências
CARVALHO, M. E. P. (2004). Escola como extensão da família ou família como extensão da escola? O dever de casa e as relações família-escola. Rev. Bras. Educ.,  Rio de Janeiro ,  n. 25. [Online]; acedido em 11.Fevereiro.2015, de <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782004000100009&lng=en&nrm=iso>;. access on  12  Feb.  2015.  http://dx.doi.org/10.1590/S1413-24782004000100009.


Imagens:
http://talkingtalk.co.za/wp-content/uploads/2013/08/homework1.jpg
http://micheleborba.com/upcoming/ending-homework-battles-im-on-martha-stewart-living-radio-aug-24-930am-et/

quinta-feira, 5 de março de 2015

TICs e Educação - O Papel do Professor

A internet trouxe consigo mudanças sociais, políticas e econômicas que vieram para ficar. É possível que ela evolua ainda, que se altere, mas algumas das coisas que ela proporcionou à nossa cultura não têm mais volta. Neste sentido, menciono especialmente o fato de atualmente estarmos todos conectados, seja em casa ou no trabalho, seja pelos dispositivos móveis ou computadores desktops, a qualquer hora, em qualquer lugar. Além de podermos acessar a rede com imensa facilidade, também nos tornamos "reféns" dela, pois podemos ser igualmente acessados e localizados. Mas, é bem verdade que, apesar de sermos localizáveis, podemos estar em vários lugares ao mesmo tempo. A isto, dá-se o nome de ubiquidade.


A rede é construída e mantida por todos os seus usuários e a quantidade de informações que circulam por ela é incontável. Não só as informações são numerosas, mas também os recursos por ela oferecidos. E é exatamente em meio a tantas informações e recursos que o internauta se perde. Não é incomum ligarmos um dispositivo para, por exemplo, comprar o ticket de um show e, após horas de navegação na web, termos esquecido completamente de fazê-lo. Cada internauta costuma ter seu próprio ritual de utilização da internet. Eu, por exemplo, sempre acesso determinados sites ou aplicativos ao ligar o computador. Abro várias abas no meu navegador e acesso minhas duas contas de email, o Facebook, por vezes acesso meu portal acadêmico e só então vou atrás do meu real objetivo na internet. Confesso que após este percurso inicial, não é raro eu me distrair com outros assuntos e esquecer o que ia mesmo fazer no computador.

No entanto, ainda que a rede tenha um grande potencial para distrair seus usuários, não podemos deixar de reconhecer seus infinitos benefícios. As crianças e jovens de hoje já estão tão imersos nesse contexto que mal conseguem desconectar-se da internet. Para eles, acessar informações a qualquer hora e de qualquer lugar é uma prática comum e que, muitas vezes, incomoda uns e outros, a citar professores adeptos de uma educação mais tradicional e hierárquica, na qual eles eram os principais detentores do conhecimento, figuras de poder. Hoje não há nada mais sábio do que a rede. Lá estão todas as informações possíveis e imagináveis. Portanto, a internet (principalmente a acessada pelos dispositivos móveis) tem sido para muitas escolas um monstro assustador e, por não saberem lidar com isso, fazem uso de uma estratégia que sempre é mal sucedida: proíbem seu acesso.

Com isso, deixam seus alunos frustrados e tentam ensiná-los de forma completamente descontextualizada de sua realidade, tornando assim a escola desinteressante. Ao meu ver, professores que resistem à incorporação dos recursos da rede e das TICs em suas práticas estão fadados ao fracasso e, por que não, à morte de suas carreiras profissionais.

É fundamental que qualquer profissional do séc. XXI busque constante atualização para ter sucesso profissional. Em um cenário de excesso de informações, tudo o que não se renova é rapidamente abandonado, cai em desuso, é substituído por algo mais moderno. Assim acontece com informações, recursos e também com pessoas. O professor não está livre disso. Negar o avanço das tecnologias não garantirá que ele não seja vítima dela.

O papel do professor está mudando e o que precisa ser ensinado hoje é como utilizar todos os recursos que a rede nos disponibiliza. Como filtrar, selecionar, saber aproveitar o mar de informações lá existente. Qualquer um pode publicar o que quiser na internet, mas é preciso formar alunos que saibam avaliar quais destas informações são merecedoras de confiabilidade, credibilidade. É preciso orientá-los também a respeito das diferenças existentes entre informações online e informações impressas e porquê é importante saber fazer uso de recursos variados.

Sobretudo, podemos dizer que o papel do professor é o de formar seres humanos íntegros, éticos e qualificados para atuar no mundo fora da escola. Porém, o mundo não é estático. Ele muda e não é concebível que o professor não o acompanhe.

Imagens: